Quem é Felca e como um vídeo de 50 minutos mudou a proteção de crianças no Brasil
No dia 6 de agosto de 2025, um YouTuber de 27 anos conhecido como Felca — nome artístico de Felipe Bressanim Pereira, de Londrina (PR) — publicou um vídeo de quase 50 minutos intitulado "Adultização". Em menos de uma semana, o vídeo acumulou 30 milhões de visualizações. Em menos de dois dias, 32 projetos de lei foram protocolados na Câmara dos Deputados. Meses depois, o presidente Lula sancionava a Lei 15.211/2025 — que ficou conhecida como "Lei Felca".
Felca não é uma vítima de abuso. É um criador de conteúdo de humor com 4,3 milhões de inscritos no YouTube e 6,5 milhões de seguidores no Instagram. Começou na internet em 2012 como streamer de games. O que ele fez em agosto de 2025 foi usar essa audiência para denunciar, com evidências, algo que autoridades e plataformas vinham ignorando há anos.
O que o vídeo mostrou
O vídeo documentou o que Felca chamou de "Algoritmo P": um mecanismo nas plataformas digitais que facilitava a circulação de conteúdo exploratório de menores para predadores sexuais. Não era teoria conspiratória — ele apresentou capturas de tela, dados de engajamento e casos específicos.
Entre os casos investigados estavam o influenciador paraibano Hytalo Santos (28 anos, com 17 milhões de seguidores no Instagram antes da conta ser desativada), e adolescentes como Kamyla Santos, que aparecia nas redes desde os 12 anos e tinha mais de 10 milhões de seguidores. O vídeo também abordou canais como "Bel Para Meninas" e Caroliny Dreher.
O ponto central do vídeo não era apenas o conteúdo em si — era a monetização. Adultos, incluindo os próprios pais, expunham e sexualizavam crianças para gerar renda. E as plataformas lucravam com isso sem agir.
A repercussão política
Em dois dias após a publicação, 32 projetos de lei foram protocolados na Câmara. O presidente da Câmara, Hugo Motta, se comprometeu publicamente a priorizar as propostas. A deputada federal Erika Hilton contatou a Polícia Federal. O deputado Nikolas Ferreira declarou que Felca "mexeu em um vespeiro". Felca foi convocado e prestou depoimento na CPI da Íris, a CPI municipal de São Paulo sobre exploração de menores.
Em 17 de setembro de 2025, o presidente Lula sancionou a Lei 15.211/2025 — o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente. A lei que estava parada no Congresso há anos foi aprovada em semanas após o vídeo.
As consequências pessoais
Denunciar um ecossistema com interesses econômicos tem um preço. Felca recebeu ameaças graves. Uma pessoa chegou a fabricar mandados de prisão falsos contra ele e foi presa. Perfis nas redes passaram a acusá-lo falsamente de pedofilia — acusação criada por aliados dos investigados. A Justiça determinou a identificação desses perfis.
Por que isso importa para você
O caso Felca não é apenas sobre influenciadores e algoritmos. É sobre o quanto as plataformas digitais — onde seus filhos passam horas por dia — podem ser usadas para explorar crianças enquanto ninguém age. A Lei Felca surgiu porque um criador de conteúdo decidiu fazer o que as autoridades não estavam fazendo.
A ferramenta chegou. O que os pais fazem com ela ainda depende de cada família.
Fontes: Câmara dos Deputados (camara.leg.br); Senado Federal (senado.leg.br); Gazeta do Povo; CNN Brasil; CPI da Íris — Câmara Municipal de SP.