Apostas online e adolescentes: o risco que chegou às salas de aula
Quando falamos de proteção infantil na internet, pornografia e redes sociais dominam o debate. Mas há um risco crescendo em silêncio nas telas dos adolescentes brasileiros: as apostas online.
Os números que pais precisam conhecer
Uma pesquisa Datafolha realizada em dezembro de 2023 com 2.004 entrevistados em 135 municípios revelou que 30% dos brasileiros de 16 a 24 anos já apostaram em plataformas de bet online — o dobro da média nacional de 15%. O gasto médio mensal entre os apostadores ativos é de R$ 263, equivalente a 20% do salário mínimo do período.
Em outubro de 2024, o DataSenado apurou que 22 milhões de brasileiros apostaram no mês anterior. O crescimento do setor é vertiginoso: entre 2021 e 2024, o número de plataformas de apostas cresceu 734%. Após a regulamentação pelo governo, os acessos a cassinos online cresceram 237%. O gasto nacional com apostas atingiu R$ 100 bilhões em 2024.
A lei proíbe — e não está funcionando para menores
A Lei 14.790/2023 proíbe explicitamente a participação de menores de 18 anos em apostas online. O governo regulamentou a fiscalização específica para proteção de menores via Portaria MESP nº 31, de abril de 2025. No papel, está proibido.
Na prática, relatos de professores, pais e reportagens confirmam que adolescentes acessam essas plataformas sem dificuldade. Os mecanismos de verificação de idade são frágeis. E o apelo é gigante: influenciadores — incluindo os mirins, que falam diretamente com o público jovem — divulgam plataformas de apostas como se fossem entretenimento normal.
Por que é tão atraente para jovens
Não é acidente. As plataformas de apostas online foram projetadas com mecânicas que espelham videogames: recompensas imediatas, sons de vitória, gráficos animados, progresso visual. A diferença é que, em vez de pontos, o que está em jogo é dinheiro real.
Essa sobreposição é especialmente perigosa para adolescentes, cujo córtex pré-frontal — a região do cérebro responsável pelo controle de impulsos e avaliação de riscos — ainda está em desenvolvimento. A mesma parte do cérebro que os impede de avaliar bem as consequências de longo prazo também os torna mais suscetíveis ao ciclo de recompensa das apostas.
A conexão com a Lei Felca
A Lei 15.211/2025 proibiu expressamente os loot boxes em jogos acessíveis a menores — aquelas caixas de recompensa com mecânica de sorteio presentes em games populares. A decisão foi direta: mecânica de cassino em produto para menor é proibida. A mesma lógica precisa se aplicar às plataformas de apostas que fazem publicidade para jovens.
O que os pais podem fazer agora
Primeiro: a conversa. Explique ao seu filho o que são apostas online, como funcionam e por que são proibidas para menores. Crianças que entendem o motivo de uma regra respeitam mais do que as que só recebem proibições.
Segundo: o controle técnico. O Salvor permite bloquear as categorias de cassinos e apostas nos dispositivos dos filhos — tanto sites quanto aplicativos. Com o bloqueio ativo, a curiosidade encontra uma barreira real, não apenas uma regra verbal.
Fontes: Datafolha/IPq USP, janeiro de 2024 (ipqhc.org.br); DataSenado, outubro de 2024 (senado.leg.br); O Cafezinho, fevereiro de 2026 (ocafezinho.com); Revista Educação, outubro de 2024 (revistaeducacao.com.br).