Deepfakes contra crianças: 173 vítimas em escolas brasileiras e o caso que chocou a Espanha
Deepfakes sexuais contra crianças e adolescentes deixaram de ser ficção e se tornaram um dos crimes digitais que mais crescem no mundo. O mecanismo é simples e assustador: uma foto comum — tirada do Instagram, do WhatsApp ou de qualquer rede social — é processada por um aplicativo de IA que "remove as roupas" e gera uma imagem de nudez falsa, mas realista. O app mais usado, chamado Clothoff, é acessível gratuitamente.
O caso de Almendralejo, Espanha (setembro de 2023)
Almendralejo é uma cidade de 35 mil habitantes na região de Extremadura, Espanha. Em setembro de 2023, pais e autoridades descobriram que imagens de nudez geradas por IA estavam circulando entre alunos do ensino fundamental. O que se revelou:
- Mais de 20 meninas afetadas, algumas com apenas 12 anos.
- As imagens foram criadas a partir de fotos roubadas do Instagram das vítimas.
- O caso afetou pelo menos 4 das 5 escolas de ensino fundamental da cidade.
- Os perpetradores eram colegas de classe — menores de idade.
- A Corte de Menores de Badajoz condenou os responsáveis por 20 acusações de criação de material de abuso sexual infantil e 20 acusações contra a integridade moral das vítimas.
173 vítimas em escolas brasileiras
A SaferNet Brasil realizou um mapeamento que identificou 173 vítimas de deepfakes sexuais em instituições públicas e privadas de 10 dos 27 estados brasileiros. A distribuição:
- São Paulo: 51 vítimas
- Mato Grosso: 30 vítimas
- Pernambuco: 30 vítimas
- Rio de Janeiro: 20 vítimas
Em um caso específico no Rio de Janeiro (2023), 28 alunas de 13 a 16 anos de uma escola privada na Barra da Tijuca foram vítimas de pornografia deepfake. Em todos os 16 casos documentados pela SaferNet, 100% das vítimas identificadas são mulheres e os 57 agressores identificados usaram ferramentas de IA gratuitas.
Sextortion com deepfake: +322% segundo o FBI
O FBI emitiu alerta em 2023 sobre o aumento de 322% nos casos de sextortion reportados entre fevereiro de 2022 e fevereiro de 2023. O padrão: criminosos usam IA para criar deepfakes de nudez a partir de fotos inocentes extraídas de redes sociais, depois chantageiam a vítima exigindo dinheiro ou mais imagens sob ameaça de compartilhamento. As vítimas incluem meninos de 10 a 17 anos e crianças a partir de 7 anos.
A legislação brasileira
O Art. 241-C do ECA já proibia a "simulação de participação de criança em cena de sexo explícito através de alteração, montagem ou modificação de fotografia ou vídeo" — com pena de 1 a 3 anos de prisão. Em abril de 2025, a Lei 15.123 acrescentou um agravante: quando o crime é cometido com IA ou recurso tecnológico que altera imagem/som da vítima, a pena é aumentada. Mesmo que o autor seja menor, pode responder com até 3 anos.
O que os pais podem fazer
A primeira linha de proteção é a conscientização: converse com seu filho sobre o fato de que qualquer foto postada publicamente pode ser manipulada. Revise as configurações de privacidade das redes sociais do filho — contas privadas reduzem drasticamente o acesso a fotos por desconhecidos. E se seu filho for vítima, denuncie imediatamente à SaferNet (denuncie.org.br) e registre boletim de ocorrência. O Salvor pode bloquear o acesso a redes sociais onde essas imagens circulam — mas a proteção mais eficaz é reduzir a exposição pública das fotos que servem de matéria-prima.
Fontes: SaferNet Brasil — mapeamento deepfakes em escolas (safernet.org.br, 2024); Euronews — "The case of Almendralejo" (novembro de 2023); CNN Brasil — "Deepfakes e IA geram quase 50 mil denúncias de abuso infantil no Brasil"; FBI — IC3 PSA sobre sextortion (junho de 2023); Lei 15.123/2025 (planalto.gov.br); ECA Art. 241-C.