Facebook e crianças: o que os documentos internos da Meta revelaram
O Facebook existe desde 2004. Durante anos, a narrativa era simples: uma plataforma para conectar pessoas. O que a empresa sabia — e ocultou — sobre o impacto na saúde mental de adolescentes veio à tona de forma sistemática a partir de 2021, com uma série de vazamentos, processos judiciais e investigações que ainda estão em curso.
Os arquivos de Frances Haugen
Em outubro de 2021, a engenheira de software Frances Haugen entregou ao Congresso americano e ao Wall Street Journal milhares de documentos internos da Meta. O que eles mostravam era revelador: a empresa havia realizado pesquisas extensas sobre o impacto do Instagram (plataforma do mesmo grupo) na saúde mental de adolescentes e chegou à conclusão de que a plataforma era danosa — especialmente para meninas. Ainda assim, a empresa optou por não agir de forma efetiva, priorizando o crescimento de usuários.
Um dos documentos internos afirmava diretamente: "Comparações sociais são piores no Instagram do que em outras plataformas". Outra pesquisa interna concluiu que o Instagram piora a imagem corporal em 1 em cada 3 meninas adolescentes.
42 procuradores-gerais contra a Meta
Em outubro de 2023, 42 procuradores-gerais americanos — de estados democratas e republicanos — entraram com uma ação coletiva contra a Meta. A acusação: a empresa teria desenvolvido recursos deliberadamente viciantes em suas plataformas, com conhecimento de que esses recursos causavam dano a adolescentes, e teria mentido publicamente sobre as descobertas internas.
Entre os recursos citados estavam os botões de "curtida", as notificações push configuradas para maximizar o retorno à plataforma, e os feeds de conteúdo projetados para criar um estado de rolagem compulsiva. A ação não foi apenas política — foi baseada nas pesquisas internas que a própria Meta havia produzido.
Publicidade próxima a conteúdo de abuso infantil
Em 2024, uma investigação da Agência Lupa (em parceria com pesquisadores internacionais) revelou que anúncios de marcas reconhecidas apareciam no Facebook e Instagram em posições adjacentes a conteúdo sexualmente exploratório de menores. O mecanismo de moderação da Meta não era suficiente para impedir a veiculação publicitária próxima a esse tipo de conteúdo — o que significa que a empresa monetizava, indiretamente, a circulação do material.
A situação no Brasil
No Brasil, o Facebook é menos popular entre adolescentes do que o Instagram e o TikTok, mas ainda relevante. A pesquisa TIC Kids Online Brasil 2023 (Cetic.br) mostra que 68% das crianças de 9 a 10 anos já têm perfil em alguma rede social — um número que inclui contas no Facebook muitas vezes criadas pelos próprios pais. O limite de 13 anos é ignorado sistematicamente, e a plataforma não realiza verificação de idade real.
A SENACON (Secretaria Nacional do Consumidor) multou a Meta em R$ 6,6 milhões em 2022 pelo compartilhamento de dados de usuários brasileiros com a Cambridge Analytica — um caso que incluiu dados de menores de idade.
O que os pais podem fazer
O Facebook possui configurações de privacidade que permitem limitar quem pode ver o perfil, enviar mensagens ou adicionar como amigo. O problema é que essas configurações precisam ser ativadas manualmente pelo usuário — e adolescentes raramente o fazem. Uma abordagem eficaz combina conversa sobre por que certas configurações importam, supervisão da conta e, em casos de crianças menores, bloqueio do acesso à plataforma fora dos horários combinados. O Salvor permite bloquear Facebook e Instagram como categorias no dispositivo do filho — e o bloqueio resiste a VPN e a tentativas de acesso via navegador alternativo.
Fontes: Wall Street Journal — The Facebook Files (2021); Congresso americano — depoimento de Frances Haugen (outubro de 2021); Ação coletiva dos 42 AGs, outubro de 2023; Agência Lupa, 2024; SENACON, processo nº 08012.003133/2021-74; TIC Kids Online Brasil 2023 (Cetic.br).