FIFA / EA FC: a máquina de apostas de R$ 7,5 bilhões que mora no celular do seu filho
O modo Ultimate Team do EA FC (antes conhecido como FIFA) é, isoladamente, a maior fonte de receita da Electronic Arts. No ano fiscal de 2024, a EA reportou que sua divisão "Ultimate Team" gerou mais de US$ 1,5 bilhão — aproximadamente R$ 7,5 bilhões — em receita recorrente. Esse dinheiro não vem da venda do jogo. Vem de pacotes de cartas que funcionam como loot boxes: o jogador paga, recebe cartas aleatórias, e a probabilidade de obter um jogador de alta classificação é deliberadamente baixa.
O mecanismo: pacotes com probabilidades contra o jogador
No Ultimate Team, o jogador monta um time comprando pacotes de cartas com FIFA Points (adquiridos com dinheiro real) ou com moedas do jogo (obtidas jogando partidas, num ritmo projetado para ser lento). Um pacote premium custa entre R$ 15 e R$ 60. A chance de obter um jogador com classificação 86+ — chamado de "walkout" — é de apenas 4 a 5% por pacote. A chance de obter um jogador de topo como Mbappé, Haaland ou Messi é inferior a 1%.
A animação de abertura é projetada para maximizar a expectativa: luzes, efeitos sonoros, a carta virando lentamente. O mecanismo psicológico é idêntico ao de uma máquina caça-níqueis — e isso não é opinião. É o que tribunais europeus vêm decidindo.
Tribunal de Viena: FIFA é jogo de azar
Em janeiro de 2024, o Tribunal Regional de Viena decidiu que os pacotes do FIFA Ultimate Team constituem jogo de azar ilegal sob a legislação austríaca. A decisão, reportada pelo Eurogamer, determinou que o mecanismo atende a todos os critérios legais de gambling: investimento monetário real, resultado determinado por aleatoriedade e expectativa de ganho (já que as cartas podem ser negociadas no mercado interno do jogo).
A decisão abre precedente para ações coletivas na Áustria e em outros países da União Europeia que compartilham definições similares de jogo de azar. A EA contestou a decisão, mas o precedente está estabelecido.
Casos reais: crianças gastando milhares sem os pais saberem
Os casos documentados são numerosos e seguem um padrão:
- Reino Unido (BBC, 2023): um menino de 12 anos gastou £3.000 (aproximadamente R$ 18.000) em pacotes do FIFA Ultimate Team em apenas dois meses. O pai só descobriu quando recebeu a fatura do cartão de crédito. A EA se recusou a reembolsar integralmente, alegando que as compras foram "autorizadas".
- Canadá (CBC Marketplace, 2024): uma investigação jornalística documentou o caso de um adolescente de 14 anos que gastou CAD $6.000 (aproximadamente R$ 23.000) em pacotes do Ultimate Team usando o cartão da mãe registrado na conta da PlayStation. A mãe relatou que o filho "não percebia que estava gastando dinheiro real".
- Padrão recorrente: em ambos os casos, as plataformas (PlayStation, Xbox, Steam) facilitam o armazenamento de dados de pagamento e não exigem confirmação adicional para compras recorrentes de baixo valor — que, somadas, chegam a milhares.
O que torna esses casos particularmente problemáticos é que o FIFA / EA FC é classificado para maiores de 3 anos (PEGI 3) na Europa e Livre no Brasil — apesar de conter um sistema de microtransações que tribunais já classificaram como jogo de azar.
Bélgica proibiu. Outros países estão seguindo.
A Bélgica foi o primeiro país a agir diretamente contra o EA FC. Desde 2019, a EA foi obrigada a remover a venda de FIFA Points no território belga, após a Belgian Gaming Commission classificar os pacotes como jogo de azar ilegal em 2018. Jogadores belgas podem abrir pacotes apenas com moedas do jogo — não com dinheiro real.
O movimento regulatório está se expandindo:
- Austrália (2023): comissão parlamentar recomendou classificar loot boxes como jogo de azar e exigir verificação de idade.
- Espanha (2023): projeto de lei para regular loot boxes como jogo de azar, com proibição para menores.
- Noruega (2023): autoridade de mídia propôs classificar pacotes do Ultimate Team como gambling, com restrições para menores de 18 anos.
Brasil: IDEC, Lei Felca e PL 2796
No Brasil, o IDEC (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor) publicou em 2023 uma análise crítica das práticas de monetização da EA, identificando que o direcionamento a menores viola o Código de Defesa do Consumidor e o ECA. O relatório apontou especificamente o Ultimate Team como exemplo de mecânica predatória que explora a vulnerabilidade de crianças e adolescentes.
No campo legislativo, dois marcos são relevantes:
- PL 2796/2021: projeto de lei que regulamenta jogos eletrônicos no Brasil, em tramitação na Câmara dos Deputados, com disposições sobre loot boxes e proteção de menores.
- Lei 15.211/2025 (Lei Felca), Art. 20: proíbe loot boxes em jogos destinados a menores ou com acesso provável de menores. Penalidades de até 10% do faturamento ou R$ 50 milhões por infração. A lei entrou em vigor em março de 2026.
Na prática, o EA FC continua vendendo FIFA Points normalmente no Brasil. A classificação indicativa do jogo é "Livre" e não há verificação de idade nas compras in-app. A fiscalização da Lei Felca ainda está sendo estruturada pela ANPD.
O ciclo vicioso do Ultimate Team
O design do Ultimate Team é deliberadamente estruturado para incentivar gastos recorrentes:
- Cartas têm validade sazonal: a cada novo lançamento do jogo (anual), todo o acervo de cartas do jogador é zerado. Milhares de reais investidos em um ano desaparecem no próximo.
- Eventos semanais com cartas limitadas: promoções como "Team of the Week" e "Future Stars" criam urgência artificial e escassez — táticas documentadas em pesquisas sobre design manipulativo.
- Matchmaking baseado em time: jogadores com times fracos enfrentam adversários com times caros, criando frustração que incentiva compras para "nivelar".
- A moeda do jogo é deliberadamente escassa: ganhar moedas jogando é lento; comprar FIFA Points é instantâneo. O design empurra o jogador para o pagamento.
O que os pais podem fazer
O EA FC é um jogo de futebol — parece inofensivo. Essa percepção é o que torna o problema tão difícil de detectar. Recomendações práticas:
- Nunca salve cartão de crédito na conta do console ou celular: remova dados de pagamento de PlayStation, Xbox, Steam e dispositivos móveis. Use cartões pré-pagos com valores limitados, se necessário.
- Ative controles de compra na plataforma: PlayStation e Xbox permitem exigir senha para cada compra. Ative essa opção imediatamente.
- Explique o mecanismo ao seu filho: "Cada pacote que você abre funciona como uma máquina caça-níqueis. A chance de sair algo bom é menor que 5%. A EA ganha R$ 7,5 bilhões por ano porque a maioria das pessoas não ganha nada."
- Monitore o acesso e os gastos: verifique periodicamente o histórico de compras nas plataformas. Ferramentas de controle parental como o Salvor permitem bloquear categorias de jogos e impedir o acesso a lojas de compras in-app, além de oferecer visibilidade sobre o uso de aplicativos no dispositivo do filho.
- Considere o modo "apenas offline": muitos dos riscos do EA FC estão no modo online (Ultimate Team). O modo carreira offline não tem microtransações.
Um jogo classificado como "Livre" que contém um sistema de monetização que tribunais europeus classificam como jogo de azar ilegal exige atenção ativa dos pais. A classificação indicativa não protege — o controle no dispositivo, sim.
Fontes: EA — Quarterly Earnings FY2024 (ea.com/investors); BBC News — "Boy, 12, spent £3,000 on FIFA packs" (2023); CBC Marketplace — investigação FIFA Points (2024); Tribunal Regional de Viena — decisão loot boxes FIFA (janeiro de 2024, reportado por Eurogamer); Belgian Gaming Commission — decisão FIFA Points (2018); IDEC — análise de monetização predatória em jogos (2023); Câmara dos Deputados — PL 2796/2021; Lei 15.211/2025, Art. 20 (planalto.gov.br).