Logan Paul, Andrew Tate e Deolane Bezerra: quando influenciadores vendem apostas e golpes para seu filho
Seu filho provavelmente não sabe o que é um esquema de pump-and-dump. Mas ele segue pessoas que executam exatamente isso — e que falam diretamente com ele, todos os dias, em plataformas onde nenhum adulto está supervisionando.
Os casos documentados
Logan Paul — CryptoZoo (2022–2023): Logan Paul, com mais de 23 milhões de inscritos no YouTube (audiência majoritariamente sub-18), lançou o CryptoZoo — um jogo baseado em criptomoedas que prometia ganhos reais através de "animais NFT". Investidores perderam centenas de milhares de dólares. A investigação do canal Coffeezilla, publicada em dezembro de 2022, documentou promessas falsas e código-fonte que nunca funcionou como anunciado. Em janeiro de 2023, uma ação coletiva foi movida contra Paul. O projeto foi apresentado como entretenimento — mas era um produto financeiro de alto risco vendido para uma audiência que não consegue distinguir marketing de conselho de investimento.
FaZe Clan — "Save the Kids" (2021): Membros do FaZe Clan — um dos maiores grupos de criadores de conteúdo gaming do mundo, com audiência predominantemente de meninos adolescentes — promoveram o token "Save the Kids" como uma criptomoeda beneficente. Após inflarem o preço com suas recomendações, venderam suas posições, causando colapso no valor. Um pump-and-dump clássico. A investigação do The Verge, publicada em julho de 2021, mostrou que os influenciadores sabiam exatamente o que estavam fazendo. Os fãs adolescentes que compraram o token com suas economias, não.
Andrew Tate — Hustler's University (2022): Andrew Tate construiu um império vendendo "mentalidade masculina" para adolescentes via TikTok. Seu programa "Hustler's University", a US$ 49/mês, atraiu mais de 100 mil membros pagantes — muitos menores de idade, segundo reportagens do The Guardian de agosto de 2022. O marketing era feito por uma rede de afiliados incentivados a produzir cortes virais no TikTok. Tate foi banido das principais plataformas em agosto de 2022 por discurso misógino e conteúdo prejudicial. Em dezembro de 2022, foi preso na Romênia sob acusação de tráfico humano e estupro — acusações que seguem em processo judicial.
Deolane Bezerra — Operação Integration (2024): No Brasil, a influenciadora Deolane Bezerra, com mais de 20 milhões de seguidores, foi presa em setembro de 2024 na Operação Integration, que investiga apostas online ilegais e lavagem de dinheiro no estado de Pernambuco. Depoimentos na CPI das Apostas, no Senado Federal, revelaram que influenciadores recebiam até R$ 500 mil por postagem para promover casas de apostas para audiências jovens. A operação expôs uma rede estruturada de marketing que usava a credibilidade de influenciadores para normalizar apostas entre adolescentes.
Por que adolescentes são o alvo perfeito
A vulnerabilidade não é acidental. Segundo pesquisa da Common Sense Media (2023), 45% dos adolescentes americanos declararam querer comprar produtos recomendados por influenciadores — e a faixa de 13 a 14 anos mostrou-se a mais suscetível a essas recomendações.
A American Psychological Association publicou em maio de 2023 um Health Advisory específico sobre mídias sociais e adolescentes, alertando que conteúdo curado algoritmicamente por influenciadores é particularmente prejudicial porque combina três elementos: a ilusão de relação pessoal (parasocial), a autoridade percebida do criador e a repetição algorítmica que reforça a mensagem.
Um estudo publicado no periódico Body Image (2022) demonstrou que conteúdo de influenciadores aumentou significativamente a insatisfação corporal em meninas de 13 a 17 anos. O mesmo mecanismo de confiança que distorce a percepção de imagem corporal é o que faz um adolescente investir suas economias em uma criptomoeda porque seu YouTuber favorito disse que era "imperdível".
O padrão que se repete
Todos esses casos compartilham uma estrutura:
- Audiência jovem construída com conteúdo de entretenimento — gaming, humor, lifestyle
- Monetização via produtos financeiros de alto risco — crypto, apostas, cursos de investimento
- Divulgação sem disclaimers adequados — sem menção a riscos, sem classificação etária, sem compliance regulatório
- Plataformas que lucram com o engajamento sem fiscalizar o conteúdo comercial
- Consequências recaem sobre os jovens consumidores — os influenciadores lucram antes que qualquer ação regulatória aconteça
O contexto regulatório
No Brasil, a Lei 14.790/2023 proíbe apostas para menores de 18 anos. A CPI das Apostas do Senado Federal (2024) expôs a dimensão do problema e recomendou endurecimento da fiscalização sobre marketing de influenciadores. A Lei Felca (15.211/2025) reforçou a proteção de crianças no ambiente digital, mas a aplicação dessas regras ao marketing de influenciadores ainda enfrenta desafios práticos significativos.
Nos EUA, a FTC tem intensificado ações contra endossos não divulgados, mas o ritmo regulatório é muito mais lento que o ciclo de lançamento de novos golpes. Quando a ação judicial chega, o dinheiro já foi transferido e a audiência já sofreu o dano.
O que os pais podem fazer
A primeira medida é entender quem seus filhos seguem. Peça para ver a lista de inscrições no YouTube, os perfis seguidos no TikTok e no Instagram. Não precisa ser uma auditoria — pode ser uma conversa: "Me mostra o que você anda assistindo." A maioria dos pais se surpreende com a quantidade de conteúdo financeiro e de apostas que aparece no feed de um adolescente.
Segundo, ensine pensamento crítico sobre publicidade. Quando um influenciador diz "invistam nisso", seu filho precisa saber perguntar: "ele está sendo pago para dizer isso? Ele tem formação para recomendar isso? Ele assume responsabilidade se eu perder dinheiro?"
Terceiro, use barreiras técnicas. Plataformas de apostas, sites de criptomoedas e conteúdo de cassino podem ser bloqueados nos dispositivos dos filhos com ferramentas como o Salvor — que atua na camada de rede, impedindo o acesso mesmo quando o adolescente tenta contornar configurações básicas do navegador.
O influenciador favorito do seu filho pode ser engraçado, carismático e parecer confiável. Mas quando ele começa a vender produtos financeiros para uma audiência que não sabe o que é risco de crédito, a diversão acaba — e o prejuízo começa.
Fontes: Bloomberg, janeiro de 2023 — CryptoZoo class action; Coffeezilla (YouTube), dezembro de 2022 — CryptoZoo investigation; The Verge, julho de 2021 — FaZe Clan Save the Kids pump-and-dump; The Guardian, agosto de 2022 — Andrew Tate banned from platforms; BBC News, dezembro de 2022 — Andrew Tate arrested in Romania; G1, setembro de 2024 — Deolane Bezerra Operação Integration; Senado Federal, 2024 — CPI das Apostas depoimentos; Common Sense Media, 2023 — teens and influencer marketing survey; Body Image journal, 2022 — influencer content and teen body dissatisfaction; APA Health Advisory, maio de 2023 — social media and adolescent mental health.