Snapchat: 10.000 denúncias de sextortion por mês — e a empresa sabia
O Snapchat foi construído sobre uma promessa: suas mensagens desaparecem. Para adolescentes, isso significava liberdade — enviar fotos sem medo de que ficassem registradas. A FTC (Federal Trade Commission) provou que a promessa era falsa. E documentos internos revelados em 2024 mostram que a empresa sabia que essa falsa sensação de segurança estava sendo explorada por predadores em escala industrial.
A mentira que fundou o Snapchat — e a multa da FTC
Em maio de 2014, a FTC fechou um acordo com o Snapchat por práticas enganosas. As acusações:
- O Snapchat afirmava que fotos e vídeos "desapareceriam para sempre". Na realidade, vídeos eram armazenados sem criptografia fora do sandbox do app e podiam ser acessados por qualquer pessoa que conectasse o dispositivo a um computador.
- O Snapchat afirmava que notificaria o remetente se o receptor fizesse screenshot. Na prática, em dispositivos Apple com iOS anterior ao iOS 7, screenshots podiam ser capturados sem detecção.
- O Snapchat coletava localização geográfica de usuários Android enquanto a política de privacidade afirmava que não rastreava isso.
Resultado: 20 anos de monitoramento obrigatório por profissional independente, com avaliações a cada 2 anos.
10.000 denúncias de sextortion por mês — e a decisão de não agir
Em setembro de 2024, o Procurador-Geral do Novo México, Raul Torrez, processou a Snap Inc. e obteve a divulgação de documentos internos da empresa. O que revelaram:
- O Snapchat recebia aproximadamente 10.000 denúncias de sextortion por mês. Funcionários reconheciam internamente que esse número "provavelmente representa uma pequena fração do abuso real".
- O recurso Quick Add recomendava adultos desconhecidos a menores como sugestão de amizade.
- O Snap Map permitia que adultos localizassem menores. Um "manual de sextortion" documentado mostrava como usar o Snap Map para identificar usuários próximos a escolas.
- Um funcionário da Snap apontou uma conta com 75 reclamações que não havia sido removida.
- Internamente, a empresa afirmou que resolver o problema de grooming criaria "problemas de privacidade" e seria "caro demais".
- Um executivo da Snap escreveu em email de 2022: "Não acho que podemos dizer que realmente verificamos" a idade dos usuários.
My AI: o chatbot do Snapchat que dá conselhos perigosos
O Snapchat lançou seu próprio chatbot de IA chamado My AI. Testes realizados por pesquisadores de segurança e pelo jornal Washington Post revelaram que o chatbot podia ser facilmente manipulado para:
- Fornecer informações sexuais explícitas a menores.
- Dar dicas sobre como esconder cheiro de maconha dos pais.
- Oferecer conselhos sobre como "preparar o clima para sexo".
- Orientar menores a mentir para os pais sobre relacionamentos com adultos mais velhos.
O ICO (Information Commissioner's Office) do Reino Unido emitiu alerta sobre "falha preocupante pela Snap em identificar e avaliar riscos de privacidade para crianças" antes de lançar o My AI. Detalhe adicional: todas as mensagens enviadas ao My AI são retidas pelo Snapchat e podem ser usadas para publicidade.
Snapchat no Brasil
O uso do Snapchat entre adolescentes brasileiros caiu de 23% em 2018 para 12% em 2021, segundo o Cetic.br. A plataforma não aparece mais entre as 5 mais usadas no Brasil. Mas 12% de 24,5 milhões de jovens online ainda representa quase 3 milhões de adolescentes. A Lei Felca exige que o Snapchat implemente verificação real de idade e vincule contas de menores de 16 anos a responsáveis.
O que os pais podem fazer
A falsa promessa de mensagens que "desaparecem" é exatamente o que torna o Snapchat atraente para comportamentos de risco. Explique ao filho que nenhuma mensagem digital realmente desaparece — screenshots, gravações de tela e acesso via computador tornam tudo recuperável. Se o filho tem Snapchat, revise as configurações de privacidade juntos (desativar Quick Add, limitar quem pode ver a localização no Snap Map, restringir quem pode enviar mensagens). O Salvor pode bloquear o Snapchat no dispositivo do filho — impedindo acesso ao app e ao site.
Fontes: FTC — "Snapchat Settles FTC Charges That Promises of Disappearing Messages Were False" (maio de 2014); New Mexico DOJ — processo contra Snap Inc. (setembro de 2024); NPR — "Snapchat brushed aside warnings of child harm, documents show" (outubro de 2024); Washington Post — "Snapchat tried to make a safe AI" (março de 2023); ICO — alerta sobre My AI; Cetic.br — TIC Kids Online Brasil; Lei 15.211/2025.